A Teoria
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1. Fundamentos e Métodos de Análise
1.1 O que é a Teoria da Realidade Original?
Conhecer é diferenciar a realidade e combinar suas diferenças em informação. Abstrair é percorrer o caminho inverso: eliminar progressivamente informação pela redução das diferenças conceituais.
O limite teórico da construção do conhecimento é a diferenciação total. O limite teórico da abstração é a ausência de diferenciação e, portanto, de informação. Na Teoria da Realidade Original (TRO), a Realidade Original corresponde a esse segundo limite: uma realidade sem qualquer diferenciação, perspectiva, interpretação ou representação sobre ela.
A Realidade Original, portanto, não pode ser integralmente conhecida. Conhecer já é diferenciá-la.
No momento em que algo é distinguido de outra coisa, surge uma diferença. Perceber e diferenciar, nesse sentido, constituem o mesmo fenômeno, ainda que possam ser separados conceitualmente para fins de explicação. Não há percepção sem diferença, porque perceber algo significa necessariamente distingui-lo.
A partir dessa diferenciação, torna-se possível interpretar e representar. Aquilo que era conceitualmente indiviso passa a ser dividido em elementos distinguíveis, que podem então ser relacionados e combinados. Dessas combinações surge informação.
A realidade percebida, interpretada e representada já não corresponde, portanto, à Realidade Original em seu limite teórico. Ela constitui uma realidade derivada.
Essa distinção entre Realidade Original e realidade derivada também é, ela própria, uma derivação. Os conceitos de “Realidade Original”, “realidade derivada”, “diferenciação”, “informação” e todos os demais conceitos utilizados pela TRO são representações. A teoria necessariamente opera no interior de uma realidade derivada para formular conceitualmente aquilo que, em seu limite, deixaria de admitir qualquer formulação conceitual.
Por essa razão, a Realidade Original não constitui um objeto que a TRO pretenda alcançar ou conhecer integralmente. Ela funciona como um limite teórico de abstração.
Podemos representá-lo por meio de uma régua conceitual.
Em uma extremidade estaria a diferenciação máxima: o crescimento das distinções, conceitos, interpretações, representações e informações por meio dos quais uma realidade derivada se torna progressivamente mais complexa.
Na extremidade oposta estaria a abstração máxima: zero diferenciação e, consequentemente, zero informação.
Esse ponto zero corresponde conceitualmente à Realidade Original.
Os extremos dessa régua são limites teóricos. O método da TRO opera necessariamente entre eles.
1.2 O método da TRO
Se conhecer significa diferenciar e construir informação a partir das diferenças, abstrair significa realizar o movimento contrário.
O método da TRO consiste em desconstruir progressivamente diferenciações conceituais, deslocando a análise em direção ao limite da Realidade Original, sem pressupor que esse limite possa ser efetivamente alcançado.
Ao retirar diferenciações, fenômenos que inicialmente pareciam distintos podem começar a revelar estruturas comuns. Distinções necessárias em determinada camada explicativa podem desaparecer quando a análise alcança uma camada mais abstrata.
A abstração, nesse sentido, não acrescenta informação. Ela a reduz.
Abstrair significa saber menos naquela escala de análise: retirar detalhes, categorias, conceitos e divisões que anteriormente permitiam diferenciar uma coisa de outra. A finalidade dessa redução, entretanto, não é simplesmente destruir o conhecimento.
A desconstrução é seguida pela reconstrução.
O conhecimento humano chega ao indivíduo, em grande medida, já estruturado. Conceitos, categorias, explicações e campos de conhecimento são recebidos como construções previamente realizadas. O indivíduo pode aprender essas construções e utilizá-las sem necessariamente reconstruir intelectualmente o caminho pelo qual se tornaram possíveis.
A TRO propõe um movimento diferente.
Primeiro, desconstrói.
Depois, reconstrói.
Ao desconstruir determinado conhecimento, procura reduzir progressivamente as diferenciações que o constituem. Ao reconstruí-lo, refaz o percurso em sentido contrário, recuperando as diferenciações e observando como estruturas progressivamente mais complexas podem emergir das anteriores.
A finalidade não é substituir o conhecimento herdado, mas aumentar sua resolução estrutural.
Desconstruir e reconstruir permite não apenas saber que determinado conceito existe ou conhecer sua definição, mas investigar como suas diferenciações internas se organizam, quais distinções são necessárias para sustentá-lo e em que profundidade essas distinções começam a desaparecer ou a se fundir com distinções presentes em outros conceitos.
O movimento pode ser representado, de forma simplificada, em duas direções:
Construção → aumento das diferenciações → aumento das possibilidades de combinação → aumento da informação → realidades derivadas progressivamente mais complexas.
Abstração → redução das diferenciações → redução das possibilidades de combinação → redução da informação → aproximação conceitual do limite da Realidade Original.
A TRO percorre deliberadamente a segunda direção para depois retornar pela primeira.
Não porque seja possível chegar ao ponto zero da régua, mas porque o movimento em sua direção permite investigar aquilo que desaparece e aquilo que permanece quando as diferenciações são progressivamente retiradas.
É nesse processo que fenômenos inicialmente classificados como diferentes podem começar a apresentar padrões comuns.
A reconstrução subsequente permite então retornar ao conhecimento diferenciado carregando uma compreensão estrutural que não estava necessariamente presente quando esse conhecimento foi apenas recebido em sua forma pronta.
A TRO pode, portanto, ser compreendida simultaneamente como uma teoria e como um método de análise.
A teoria propõe a Realidade Original como o limite conceitual de ausência de diferenciação e informação.
O método desloca-se em direção a esse limite por abstração, desconstruindo diferenciações, e depois realiza o movimento inverso, reconstruindo-as.
Desconstruir para identificar o que permanece quando as diferenças desaparecem. Reconstruir para compreender como as diferenças tornam possível aquilo que chamamos de conhecimento.
É a partir desse movimento que a Teoria da Realidade Original inicia sua investigação da realidade.
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