Teoria da Realidade Original
Conheça os fundamentos

A Teoria da Realidade Original

Aa
20px
Índice

2 Antes de explicar a teoria

2.8 Pensar sobre o próprio pensar

O que uma pessoa já viveu pode servir de ponto de partida para investigar aquilo que ainda não compreende. Ao longo de uma vida, observamos o comportamento de outras pessoas, testamos maneiras de agir, percebemos regularidades, mudamos de opinião e acumulamos explicações sobre o mundo. Boa parte desse aprendizado acontece sem planejamento, protocolos ou registros formais. Ele fica distribuído entre lembranças, hábitos, expectativas e associações que integram a matriz cognitiva de cada um.

Esse repertório não precisa ser descartado para que se desenvolva outra forma de raciocinar. Precisa, porém, deixar de ser apenas a referência a partir da qual julgamos. No item 2.6, a metaconsciência era perceber o que se passa na própria experiência. A metacognição dá um passo além: examina a própria atividade de pensar. Não basta reconhecer um pensamento; é preciso perguntar como uma conclusão se formou, que critérios a sustentam, que informações ficaram de fora e se outra interpretação explicaria melhor a situação. O psicólogo John Flavell, que no fim dos anos 1970 ajudou a consolidar o conceito, descreveu-a como o conhecimento que temos da própria cognição e o acompanhamento do que ela faz durante uma tarefa.

Imagine alguém que cultivou plantas por muitos anos. Já viu mudas da mesma espécie crescerem de maneiras diferentes e aprendeu, por tentativa e erro, a relacionar essas diferenças ao sol, à água e ao lugar do plantio. Ao estudar drenagem e transpiração, pode reconhecer relações que antes apareciam como episódios isolados. Mas também pode descobrir que atribuía à falta de água um problema de raízes. O conhecimento novo não cria as experiências anteriores; oferece outras maneiras de relacioná-las. E as experiências, por sua vez, ajudam a formular perguntas que o conceito sozinho talvez não sugerisse.

A mesma pessoa em três níveis sobrepostos: uma árvore como pensamento, relações entre árvore e ambiente e revisão de explicações alternativas sobre a árvore.
A mesma pessoa em três níveis: pensar na árvore, explicar o que acontece com ela e examinar a própria explicação, voltando atrás quando ela não se sustenta.

O movimento também exige examinar a origem das próprias certezas. Se alguém concluiu, a partir de três situações semelhantes, que determinado comportamento sempre produz o mesmo resultado, vale recuperar as circunstâncias de cada caso. O que se repetiu? O que foi diferente? Houve ocasiões contrárias que não ficaram na memória? Que nova observação permitiria distinguir duas explicações possíveis? Essas perguntas não transformam uma lembrança em experimento. Tornam explícito um raciocínio que antes podia operar sem ser examinado.

Existe, aqui, uma diferença importante entre experiência cotidiana e investigação científica. Ambas podem começar pela observação de fenômenos. Na vida comum, porém, as observações são frequentemente ocasionais, seletivas e reconstruídas pela memória. A ciência procura submetê-las a métodos, registros, comparações e verificações que permitem corrigir impressões individuais. O repertório pessoal é valioso para reconhecer padrões e produzir hipóteses; não basta, por si só, para demonstrar os mecanismos que os produziram. E, como mostrou o experimento das meias, a introspecção não recupera integralmente as causas dos nossos pensamentos.

Há uma circulação nos dois sentidos. Um conceito aprendido hoje pode dar novo significado a algo vivido anos atrás. E uma experiência antiga pode fazer surgir uma pergunta que não aparecia na explicação estudada. O ponto decisivo não é concordar imediatamente com a nova interpretação, mas conseguir reconstruir as relações que a sustentam e confrontá-las com outras possibilidades. Em estudos sobre aprendizagem, Michelene Chi e colaboradores observaram que estudantes que produziam explicações próprias ao estudar exemplos de física relacionavam melhor os passos da solução aos princípios envolvidos.

Esse trabalho não precisa ocorrer de uma vez nem seguir uma sequência rígida. Uma forma de começar é escolher uma conclusão antiga sobre algo que se conhece bem, recuperar as experiências que a sustentaram, considerar uma explicação alternativa e procurar o que seria necessário observar ou consultar para decidir entre elas. Se a conclusão resistir, ganha sustentação; se mudar, o próprio erro passa a fornecer informação. O exercício é especialmente fértil quando o repertório vivido encontra conceitos de outras áreas, desde que as diferenças entre essas áreas não sejam apagadas.

Assim se torna mais concreta a construção da segunda matriz cognitiva proposta no item 2.5. Ela não substitui as referências que o leitor já possui nem concede acesso privilegiado à verdade. É uma organização adicional de relações, definições e critérios que pode ser desenvolvida ao examinar a experiência acumulada, estudar novos conhecimentos e pôr as interpretações à prova. A própria TRO deve ser submetida a esse processo: compreendê-la dentro de suas definições e depois confrontar suas proposições com aquilo que se sabe, inclusive para discordar delas.

Síntese para refletir

  • A experiência cotidiana oferece material para novas perguntas, mas não equivale, por si só, a evidência científica.
  • A metacognição permite examinar critérios, estratégias e limites do próprio raciocínio.
  • Uma experiência antiga pode ganhar novo sentido quando relacionada a outro conceito; essa relação precisa ser examinada.
  • Uma matriz cognitiva adicional se constrói ao relacionar, reconstruir e testar interpretações, sem apagar a anterior.

Ver fundamentação científica e referências

Toda a teoria em uma única páginaLeitura contínua para pessoas e ferramentas de IA.