A Teoria
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2 Antes de explicar a teoria
2.3 Premissas para compreender a TRO
Antes de entrar propriamente na Teoria da Realidade Original, algumas premissas devem permanecer como referência para a leitura. Elas condensam princípios apresentados anteriormente e estabelecem os limites dentro dos quais os conceitos seguintes devem ser interpretados.
A realidade é una e indivisível. A divisão pertence à explicação e ao conhecimento.
Conhecer exige diferenciar. Para perceber, interpretar, representar, comparar e relacionar, precisamos produzir distinções. Separamos objetos, acontecimentos, propriedades, escalas, disciplinas e conceitos porque essas divisões aumentam nossa capacidade de conhecer e explicar.
Isso não significa que as mesmas divisões existam na realidade da maneira como existem em nossas representações.
As partes pertencem ao mapa. A realidade não precisa obedecer às fronteiras que utilizamos para explicá-la.
Por isso, quando a TRO divide conceitualmente um fenômeno, apresenta uma sequência explicativa ou utiliza diferentes abstrações, essas divisões não devem ser automaticamente transformadas em partes, etapas ou acontecimentos ontologicamente independentes.
Se conhecer exige diferenciar uma realidade una, aquilo que identificamos como uma coisa depende também das diferenças que conseguimos ou escolhemos considerar.
Não existem dois Arranjos absolutamente idênticos.
Dois átomos podem ser classificados como hidrogênio porque correspondem suficientemente aos critérios utilizados nessa classificação. Isso não exige que sejam absolutamente idênticos em todas as suas relações, estados e histórias.
A mesma impossibilidade permanece através do tempo. Um Arranjo não é absolutamente idêntico nem a si próprio em dois instantes diferentes. Ele continua em interação consigo mesmo e com o contexto ao qual pertence. Para preservar uma identidade absolutamente invariável seria necessário, conceitualmente, congelá-lo no tempo e eliminar qualquer mudança em suas relações.
Por isso, igualdade e identidade utilizadas pelo conhecimento são dependentes da resolução e da finalidade da comparação.
Dizer que duas coisas são iguais significa que, naquele recorte, determinadas diferenças foram desconsideradas.
A classificação permanece útil. O que desaparece é apenas a exigência de que igualdade classificatória corresponda a identidade absoluta.
Conhecer e comunicar exigem representação.
Letras, palavras, números, imagens, conceitos, diagramas, modelos e teorias são formas pelas quais diferenças percebidas e interpretadas podem ser codificadas e relacionadas.
Mas o signo não é aquilo que representa.
A palavra árvore não é uma árvore. Uma fotografia de uma árvore também não é a árvore. Um conceito de átomo não é um átomo. Um modelo da realidade não é a realidade.
A própria TRO está submetida a essa premissa.
Tudo aquilo que será apresentado a seguir — Realidade Original, Realidade Derivada, Realidade Derivada Humana e qualquer outro conceito — constitui representação utilizada para explicar aquilo que a teoria procura compreender.
A representação pode aumentar nossa capacidade de conhecer a realidade sem jamais tornar-se a própria realidade.
A comunicação não transfere diretamente o estado interpretativo de um indivíduo para outro.
O emissor produz uma representação codificada e a disponibiliza através de uma mensagem. O receptor recebe essa representação e precisa interpretá-la.
Por isso, aquilo que chega ao receptor não é a interpretação existente no emissor, mas uma mensagem a partir da qual outra interpretação será construída.
Quanto maior a correspondência entre códigos, referências, experiências e contextos disponíveis aos participantes, maior pode ser a aproximação entre as interpretações. Ainda assim, comunicação não implica identidade entre elas.
Essa premissa também se aplica à própria TRO.
O texto seguinte não transfere a teoria diretamente para o leitor. Ele disponibiliza representações a partir das quais o leitor construirá sua própria interpretação.
A TRO utiliza diferentes abstrações para aumentar ou reduzir a resolução explicativa sem assumir que as fronteiras produzidas por essas abstrações sejam fronteiras da própria realidade.
O mesmo vale para o conhecimento já existente.
Física, química, biologia, astronomia, neurociência, psicologia e outros campos produzem conhecimentos fundamentais por meio de seus próprios recortes, escalas, métodos e linguagens. A TRO utiliza observações, medições, experimentos e modelos produzidos por esses campos, mas não assume que suas divisões disciplinares constituam divisões ontológicas da realidade.
Por isso, um conceito da TRO deve primeiro ser compreendido dentro da abstração em que foi formulado.
Não se deve concluir imediatamente que um conceito da TRO “é” determinado conceito da física, da biologia, da filosofia ou de qualquer outro campo apenas porque existe alguma correspondência entre eles.
Da mesma forma, abstrações diferentes dentro da própria TRO não devem ser fundidas apenas porque se referem ao mesmo fenômeno.
Compreender vem antes de comparar.
Comparar vem antes de concluir equivalência, compatibilidade ou conflito.
A TRO pode formular inferências a partir de padrões encontrados entre diferentes escalas e perspectivas mesmo quando determinada relação ainda não possui explicação estabelecida por uma disciplina especializada. Isso não transforma a inferência em evidência.
Quando houver confronto com conhecimento externo, deve permanecer explícita a diferença entre observação, evidência, modelo, correspondência, compatibilidade, inferência, hipótese e conflito.
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