Teoria da Realidade Original
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Reflexão

Todo mundo está reagindo

Mão de primata próxima de um botão vermelho, diante de líderes reunidos em torno de um mapa e de um globo cercado por cenas de conflito militar.

Tenho a impressão de que o mundo está ficando mais agressivo.

Talvez seja o Facebook.

Assisti a alguns vídeos de protestos na França e, como recompensa, o algoritmo resolveu me avisar que o planeta inteiro está prestes a entrar em guerra. Primeiro vieram estudantes enfrentando policiais. Depois, mísseis franceses. Depois, exercícios militares russos. Drones chineses. A OTAN. Trump. Em algum momento comecei a me perguntar se o problema estava no mundo ou no meu feed, e fui olhar os números.

Infelizmente, o algoritmo não inventou tudo.

O número de conflitos armados envolvendo Estados chegou ao nível mais alto registrado desde 1946. Os gastos militares mundiais bateram novos recordes. Instituições europeias e alguns governos voltaram a falar abertamente em se preparar para conflitos de alta intensidade. Países que passaram décadas encolhendo suas forças armadas agora aumentam orçamentos, compram munição, treinam tropas, desenvolvem drones, sistemas antidrones e defesa aérea.

Nada disso quer dizer que a Terceira Guerra Mundial esteja marcada para o mês que vem. Mas quer dizer alguma coisa. O quê? Talvez valha começar por uma constatação desconfortável: quase ninguém acha que está começando uma briga.

Todo mundo está reagindo.

A tentação, aqui, é perguntar quem provocou primeiro. Quem tinha razão. Quem violou qual regra. Quem deveria ter agido diferente. São perguntas legítimas. Só não são as minhas. O que eu quero é deixar essas camadas de lado por um momento e olhar para algo que vem antes delas.

Antes de uma ação ganhar um nome — defesa, agressão, sanção, retaliação, provocação —, ela muda as condições do sistema. Alguém percebe a mudança e reage. A reação muda as condições outra vez. E aparece outra reação.

Direito, história, ética e responsabilidade pesam de forma muito diferente conforme quem observa, quem é afetado, a cultura, os interesses em jogo e o ponto que se escolhe para começar a contar a história. Basta mudar a perspectiva para que palavras que pareciam firmes passem a significar outra coisa. O que me interessa é o que sobra mesmo quando essas interpretações divergem: cada movimento altera o ambiente em que o próximo será decidido.

Pode parecer uma tentativa de neutralidade.

Não é.

Estou tomando posição. Só não estou escolhendo uma das posições políticas, econômicas, jurídicas ou éticas que disputam a leitura dos acontecimentos. Meu recorte é outro: tirar da mesa, por um instante, aquilo em que essas leituras discordam e observar o mecanismo que continua funcionando por baixo delas.

Se tenho alguma preferência, ela não é por Washington, Moscou, Pequim, Bruxelas ou Kiev. É pela continuidade e pelo bem-estar humano. Isso também é uma posição. E talvez pareça neutralidade justamente porque não cabe direito em nenhum dos lados disponíveis.

Aconteceu uma coisa curiosa enquanto eu revisava este artigo. Pedi a diferentes inteligências artificiais que procurassem falhas no argumento. Elas encontraram algumas falhas, e suas observações ajudaram a melhorar o texto. Mas uma objeção voltava sempre:

— Você precisa distinguir politicamente as ações.

Traduzindo:

— Tudo bem. Mas, afinal, de que lado você está?

Essa insistência diz alguma coisa. Não sobre as máquinas — elas aprenderam conosco. Nós organizamos boa parte do debate público assim. Direita ou esquerda. Ocidente ou Oriente. Rússia ou Ucrânia. Estados Unidos ou China. A favor ou contra. Essas categorias ajudam em certas discussões. O problema começa quando passamos a achar que pensar exige escolher uma delas.

E se a pergunta estiver fora dessas categorias? E se, para enxergar certa dinâmica, for preciso deixar de lado por um momento aquilo que separa os lados? Isso não é ausência de posição. É recusar que as posições disponíveis decidam quais perguntas podem ser feitas. Talvez exista uma liberdade intelectual anterior à de escolher um lado: a de não deixar que os lados disponíveis definam o pensamento.

Porque o próprio pensamento pode cair na mesma dinâmica de ação e reação que estou descrevendo. Alguém critica um lado, e imediatamente procuramos o outro. Alguém questiona uma narrativa, e tentamos descobrir a qual narrativa rival ele pertence. E se não for preciso responder dentro das alternativas que nos ofereceram?

A China cresceu dentro do sistema

Durante algumas décadas, o mundo viveu uma situação rara na história. Havia uma potência claramente dominante. Os Estados Unidos tinham uma superioridade militar extraordinária, controlavam a principal moeda internacional, lideravam as instituições financeiras mais importantes e mantinham uma rede de alianças sem paralelo. Ao mesmo tempo, a globalização trazia uma promessa sedutora: quanto mais os países negociassem entre si, menos sentido faria guerrear.

A China entrou nesse sistema e cresceu dentro dele. Recebeu investimentos. Produziu para empresas ocidentais. Exportou para o mundo. Encaixou-se nas cadeias produtivas internacionais. Por muito tempo, isso foi conveniente para quase todo mundo. O consumidor americano comprava barato. A empresa ocidental produzia barato. A China crescia.

Só que ela não parou de crescer. Chegou um momento em que deixou de ser apenas a grande fábrica do sistema e virou concorrente do país que ocupava o centro dele: semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, carros elétricos, baterias, energia, navios, espaço, armamentos, infraestrutura, comércio internacional.

Talvez a questão nunca tenha sido se os Estados Unidos aceitariam uma China próspera. A pergunta mais difícil era outra: aceitariam uma China capaz de disputar o seu lugar?

A resposta não começou com Donald Trump. Obama já tinha voltado a atenção estratégica para a Ásia. Biden manteve os controles tecnológicos contra Pequim. Trump só tornou a disputa mais explícita, mais transacional e, muitas vezes, mais barulhenta. Tarifas. Restrições tecnológicas. Sanções. Ameaças. Negociações. Novas tarifas. Novas ameaças.

Não é preciso imaginar uma sala secreta em Washington onde alguém decidiu destruir a ordem mundial. A explicação pode ser mais simples: uma potência percebeu que sua vantagem estava encolhendo e começou a usar as ferramentas que ainda tinha para preservá-la. Isso deveria surpreender alguém? Provavelmente não. Talvez só tenhamos passado algumas décadas acreditando que grandes potências tinham deixado de se comportar como grandes potências.

Nem uma polegada para o leste

Agora, a Rússia. Há uma frase que volta sempre que Putin explica como a relação com o Ocidente se deteriorou. Em 1990, durante as negociações para a reunificação alemã, o secretário de Estado americano James Baker disse a Mikhail Gorbachev que a jurisdição militar da OTAN não avançaria “nem uma polegada para o leste”.

A conversa existiu. Os documentos foram desclassificados. Mas há um detalhe importante: aquilo nunca virou um tratado geral proibindo futuras expansões da OTAN. É aqui que começa uma daquelas situações em que duas narrativas incompatíveis conseguem ter, ao mesmo tempo, elementos verdadeiros.

Washington pode dizer:

— Nunca assinamos um tratado prometendo que a OTAN não se expandiria.

E Moscou pode responder:

— Vocês nos deram garantias políticas e depois fizeram exatamente o que diziam que não fariam.

Polônia, Hungria, República Tcheca e outros países entraram na OTAN. Mais tarde vieram os bálticos. Para esses países, entrar na aliança era proteção. Para Moscou, era uma aliança militar chegando mais perto. Então a Ucrânia passou a buscar mais integração com o Ocidente.

Do ponto de vista ucraniano, a lógica é fácil de entender:

— Tenho medo da Rússia. Quero uma aliança que me proteja dela.

Do ponto de vista russo, a mesma frase soa assim:

— Uma aliança militar adversária quer chegar ainda mais perto da nossa fronteira.

A Ucrânia olha para a reação russa e pensa:

— Viu? É exatamente por isso que precisamos da OTAN.

A Rússia olha para o interesse ucraniano na OTAN e pensa:

— Viu? É exatamente por isso que precisamos reagir.

Difícil achar exemplo melhor do que as relações internacionais chamam de dilema de segurança. Eu aumento minha segurança. Você se sente menos seguro e aumenta a sua. Eu vejo você se armando e concluo que estava certo em desconfiar. A certa altura, ninguém mais precisa mentir. Todos podem estar com medo de verdade. E todos podem estar ajudando a tornar o outro mais perigoso.

Quando o dinheiro também vira arma

A invasão russa em grande escala da Ucrânia, em 2022, abriu outra ruptura. Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Japão e outros aliados congelaram centenas de bilhões de dólares em reservas russas guardadas no exterior. Bancos russos foram atingidos. Empresas, sancionadas. Tecnologias, bloqueadas.

Do ponto de vista ocidental, a justificativa era óbvia:

— A Rússia invadiu um país soberano. Precisamos aumentar o custo da agressão.

Do ponto de vista russo:

— O Ocidente está fazendo guerra econômica contra nós e financiando nosso inimigo.

Mas há outra pergunta. Imagine que você preside o banco central de um país com divergências sérias com Washington. Você vê a Rússia acumular reservas internacionais justamente para se proteger numa crise. Quando a crise chega, descobre que boa parte dessas reservas pode ficar inacessível por decisão dos países onde estão guardadas. Que conclusão você tira? Talvez esta:

— Reservas internacionais não são só dinheiro. Também dependem de relações políticas.

Isso não destruiu o dólar nem derrubou o sistema financeiro internacional. Mas mostrou algo que muitos governos não vão esquecer tão cedo: o sistema também pode ser usado como instrumento de poder.

A Rússia estreita as relações econômicas com a China. A China compra energia russa. O comércio em moedas alternativas cresce. Bancos centrais compram mais ouro. Os BRICS discutem mecanismos próprios. A Europa tenta depender menos da energia russa. A Rússia procura novos mercados. Empresas ocidentais vão embora, e Moscou assume os ativos de algumas delas. E, de novo, todos estão reagindo.

A agressão anterior é sempre a do outro.

E então chegamos a 2026

Em janeiro, forças americanas entraram na Venezuela, capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores e os levaram para os Estados Unidos. Dá para discutir Maduro. Dá para discutir a democracia venezuelana, o narcotráfico, as eleições. Mas, antes de qualquer uma dessas discussões, há um fato simples: uma potência entrou militarmente em outro país e tirou de lá o seu governante.

Depois vieram os interesses econômicos, a reorganização do setor de petróleo e a participação de empresas americanas. A justificativa? Segurança. Crime. Estabilidade. Democracia. A leitura dos adversários dos Estados Unidos? Intervenção. Imperialismo. Petróleo. Mais uma vez, ninguém precisou inventar uma justificativa absurda. Talvez o problema seja exatamente esse: quase sempre há argumentos à mão.

Depois veio o Irã, e a linguagem subiu de temperatura. Trump falou em mandar o país de volta à “Idade da Pedra”. Ameaçou pontes e usinas. Num determinado momento, escreveu:

“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”

Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. O Irã respondeu. O Estreito de Ormuz virou o centro de uma crise energética internacional. E aí aconteceu algo que talvez seja mais importante do que parece: Washington pediu apoio aos aliados, e alguns europeus disseram não. A Alemanha resumiu sua posição numa frase:

— Esta não é nossa guerra.

O recado era claro: vocês começaram sem nós; não venham nos chamar agora só porque ficou difícil. Talvez tenha sido ali que uma rachadura antiga ficou mais visível. A relação transatlântica sempre teve atritos. Mas, por décadas, havia uma premissa razoavelmente estável: quando a segurança apertasse de verdade, os Estados Unidos estariam lá. Agora, em vários governos europeus, começa a surgir uma pergunta:

— Estarão?

E os Estados Unidos parecem fazer outra:

— Por que deveríamos?

A muleta

Por décadas, a defesa europeia dependeu enormemente da capacidade americana. Os europeus podiam financiar saúde, educação, infraestrutura e proteção social enquanto os Estados Unidos carregavam boa parte da estrutura militar da OTAN. Trump reclama disso há anos. A diferença é que agora a reclamação encontrou outro contexto.

A guerra na Ucrânia continua. A Rússia continua armada. Os Estados Unidos voltam cada vez mais a atenção para a China e o Indo-Pacífico. E a relação entre Washington e os aliados europeus já não parece automática.

Governos e instituições europeias reagem: Readiness 2030, mais gastos militares, mais munição, mais defesa aérea, mais drones, mais sistemas antidrones, mais capacidade própria. Líderes europeus falam abertamente em se preparar para a possibilidade de guerra. Moscou observa e reage:

— A Europa está se militarizando contra nós.

A Europa responde:

— Estamos nos militarizando porque temos medo de vocês.

E pronto. Parece encontro de dois cães na rua.

A palavra elegante

Dois cães se encontram. Um para. O outro enrijece o corpo. O primeiro mostra os dentes. O segundo rosna. Nenhum dos dois quer, necessariamente, brigar. Na verdade, boa parte dessa coreografia existe justamente para evitar a briga. A mensagem é simples:

— Veja do que sou capaz.

Nós inventamos palavras melhores para isso. Dissuasão. Projeção de poder. Coerção. Retaliação. Prontidão estratégica. Exercício militar. “Dissuasão” é uma palavra particularmente elegante. Na prática, quer dizer:

— Veja o que consigo fazer com você. Pense bem antes de fazer o que eu não quero.

Isso pode evitar guerras. A dissuasão nuclear provavelmente ajudou a impedir que Estados Unidos e União Soviética se atacassem diretamente durante a Guerra Fria. Mas não precisamos fingir que a ameaça sumiu só porque ganhou um nome técnico. A ameaça é o próprio mecanismo.

A França testa seu novo míssil estratégico, e Macron diz:

— Para ser livre, é preciso ser temido.

A Rússia faz exercícios nucleares. A China desfila mísseis, drones, lasers e armas antinavio. Os Estados Unidos deslocam porta-aviões. A OTAN movimenta tropas. Todos explicam:

— É defensivo.

E provavelmente acreditam nisso. Esse é o detalhe inquietante.

A guerra também aprende

Enquanto os governos exibem armas, as próprias armas estão mudando. Na Primeira Guerra Mundial, metralhadoras, artilharia e arame farpado ajudaram a transformar grandes trechos do front em redes de trincheiras. Na Segunda, tanques, aviação, rádio e forças mecanizadas permitiram romper posições e avançar muito mais depressa. A guerra na Ucrânia está ensinando outra coisa.

Um drone barato encontra um tanque caro. Surge um bloqueador de sinal. Surge um drone resistente ao bloqueio. Surge um drone guiado por fibra óptica. Surge um interceptador. Uma rede. Um laser. Uma arma de micro-ondas. Inteligência artificial para identificar e priorizar alvos.

A guerra também aprende. E cada lado aprende com o outro. Uma tecnologia funciona por alguns meses, o adversário descobre como neutralizá-la, e uma solução puxa outra. Em tempos de paz, uma tecnologia pode levar anos para passar por laboratório, orçamento, burocracia e produção. Na guerra, a pergunta é mais curta:

— Funcionou?

Se sim, produza. Se não, mude amanhã. Talvez estejamos assistindo a uma aceleração tecnológica militar cujas consequências vão durar muito além desta guerra.

E o algoritmo também entrou na guerra

Há ainda uma diferença importante em relação às disputas de outras épocas: agora todos nós assistimos. O míssil francês aparece no celular. O drone russo aparece no celular. O novo sistema antidrones chinês, o caça americano, o Gripen brasileiro — tudo aparece no celular.

Uma demonstração militar deixou de ser só um recado entre governos. Virou também conteúdo. E conteúdo disputa atenção. “Nosso sistema defensivo apresentou melhora incremental de 7%” não viraliza. “VEJA A NOVA ARMA QUE MUDA TUDO” funciona melhor. Governos sabem disso. Fabricantes sabem disso. Influenciadores sabem disso. O algoritmo só sabe que você assistiu até o fim.

Talvez estejamos vivendo algo novo: a dissuasão entrou na era do algoritmo. E isso muda mais do que a forma como nós, espectadores, enxergamos o mundo. O algoritmo não se limita a amplificar o meu medo. Ele pode entrar no próprio circuito que produz as demonstrações de força.

Um Estado testa um míssil. O teste gera imagens. As imagens circulam. As mais espetaculares recebem mais atenção. A atenção gera repercussão interna, propaganda, prestígio, medo, apoio, rejeição e pressão política. O adversário vê a demonstração e responde. A resposta também é filmada, também circula, também disputa atenção. E o ciclo recomeça: ação, imagem, algoritmo, percepção, pressão, reação, nova imagem, novo algoritmo.

Estados sempre exibiram armas; desfiles militares existem desde muito antes do Facebook. A novidade é que essas demonstrações agora entram em sistemas capazes de selecionar e redistribuir, em escala planetária e quase instantânea, aquilo que mais prende a atenção. Um míssil não precisa só funcionar. Precisa ser visto. E quanto mais impressionante a demonstração, maior a chance de ela atravessar fronteiras não apenas em radares e relatórios de inteligência, mas no bolso de bilhões de pessoas.

Talvez isso não mude a lógica de fundo da demonstração de força. Mas pode acelerar sua circulação. E cada demonstração que circula passa a fazer parte do ambiente ao qual os outros vão responder. O adversário precisa assistir. A população do próprio país precisa assistir. E nós também assistimos. Aí o Facebook oferece outro vídeo. E outro. E começamos a sentir que o mundo inteiro está mostrando os dentes.

O problema é que, desta vez, os dentes são de verdade.

Todo mundo tem uma história

Dá vontade de procurar quem começou. Estados Unidos? China? Rússia? OTAN? Ucrânia? Europa? Mas sempre existe um acontecimento anterior.

Estados Unidos: — Estamos reagindo à expansão econômica e militar chinesa.

China: — Estamos reagindo à tentativa americana de frear nosso desenvolvimento.

Rússia: — Estamos reagindo à expansão da OTAN.

OTAN: — Países vizinhos da Rússia pediram proteção.

Ucrânia: — Procuramos a OTAN porque temos medo de Moscou.

Moscou: — A Ucrânia quer pôr uma aliança adversária na nossa fronteira.

Europa: — Sancionamos a Rússia porque ela invadiu a Ucrânia.

Rússia: — A Europa financia e arma nosso inimigo.

Estados Unidos: — Atacamos o Irã para eliminar uma ameaça.

Europa: — Vocês começaram essa guerra sem nós.

Estados Unidos: — Então assumam mais responsabilidade pela própria segurança.

Europa: — Talvez não dê mais para depender de vocês.

A Rússia observa o rearmamento europeu: — Estão preparando uma guerra contra nós.

A Europa observa a reação russa: — Viu? Precisamos nos preparar.

Todo mundo está reagindo. Algumas guerras talvez comecem quando alguém decide fazer uma guerra. Outras começam de um jeito bem menos cinematográfico: uma sanção, uma resposta, uma tropa deslocada, um exercício militar, um bloqueio tecnológico, uma nova aliança, um míssil instalado, uma ameaça, uma contra-ameaça.

Cada passo parece administrável. Cada passo tem uma justificativa. Cada passo responde ao anterior. Até que alguém olha para trás e percebe que percorremos uma distância enorme sem que ninguém tenha anunciado a viagem.

O mundo está ficando mais perigoso? Os números dizem que o ambiente internacional está mais militarizado e fragmentado. Há mais conflitos envolvendo Estados. Há mais dinheiro indo para armamentos. Países europeus estão ampliando gastos e capacidades militares. A relação transatlântica está menos previsível. Rússia e OTAN trocam ameaças. China e Estados Unidos disputam tecnologia, comércio e influência. Novas guerras estão produzindo novas tecnologias militares.

Isso não significa que uma guerra mundial seja inevitável. Na verdade, todos esses preparativos podem até impedir uma. Esse é o paradoxo: quanto mais medo eu tenho de você, mais me preparo; quanto mais me preparo, mais medo você tem de mim. Pode ser que os dois terminem tão bem armados que nenhum queira atacar. Funcionou durante boa parte da Guerra Fria.

Ou pode ser que alguém erre. Um drone cruza a fronteira errada. Um radar interpreta mal um sinal. Um comandante decide em minutos. Uma inteligência artificial classifica um alvo. Um presidente aposta que o outro vai recuar.

E o outro não recua.

Não é preciso um vilão querendo destruir o planeta. Talvez seja isso o que mais me preocupa. Seria mais fácil se houvesse um: bastaria encontrá-lo. Mas quando cada lado tem seus próprios medos, interesses, traumas históricos e justificativas, o problema fica muito mais difícil. Compreender o outro começa a parecer fraqueza.

E talvez seja aí que começa a encolher o espaço entre perceber uma ameaça e responder a ela. Foi nesse espaço que colocamos a diplomacia, os tratados, o comércio, as instituições internacionais, a negociação, o direito, as palavras. Tudo isso é lento. Muitas vezes frustrante. Às vezes hipócrita. E quase nunca rende vídeo bom para rede social. Mas talvez essas coisas tenham uma função que só percebemos quando começam a falhar: elas põem distância entre mostrar os dentes e morder.

Talvez o mundo não esteja caminhando inevitavelmente para uma grande guerra. Talvez estejamos só entrando numa época em que todos mostram os dentes com mais frequência. O problema é que cada um olha para os dentes do outro e encontra mais um motivo para mostrar os seus. E assim seguimos. Todos reagindo. Todos com argumentos. Todos convencidos de que o próximo movimento é necessário.

Há uma última ironia nisso tudo. Para chegar a ela, vale uma pequena visita à biologia. Chimpanzés vivem em comunidades com territórios reconhecíveis. Grupos vizinhos podem dividir áreas de fronteira, mas também patrulham esses limites. Em estudos de longo prazo, pesquisadores viram indivíduos se deslocando de forma coordenada até as bordas do território, procurando sinais das comunidades vizinhas e avaliando quando avançar ou recuar.

Não fazem isso às cegas. Há registros de chimpanzés usando pontos elevados do terreno para obter informação sobre grupos rivais e ajustando o comportamento conforme a distância e a vantagem numérica que percebem. Quando encontram membros de outra comunidade, a interação pode acabar só em vocalizações. Pode acabar em recuo. Pode acabar em agressão. E, em alguns casos, em morte. Um levantamento de cinco décadas mostrou que a maior parte das mortes registradas entre chimpanzés aconteceu em ataques entre comunidades, muitas vezes com coalizões de machos e forte superioridade numérica dos atacantes.

Outros primatas se organizam de outros jeitos. Babuínos e macacos têm hierarquias, alianças, disputas de posição e indivíduos que podem intervir em conflitos dentro do grupo. Os bonobos oferecem um contraste interessante: comunidades vizinhas podem passar longos períodos juntas, dividir comida e cooperar. Isso não elimina a agressão entre grupos — já houve episódios graves —, mas mostra que não existe uma única forma de organização social nem entre nossos parentes evolutivos mais próximos.

Agora volte para nós. Também formamos grupos. Também estabelecemos territórios. Também reconhecemos fronteiras, criamos alianças e avaliamos a força do grupo vizinho. Só que fazemos tudo isso com uma capacidade simbólica imensamente maior.

O chimpanzé patrulha uma fronteira. Nós desenhamos a fronteira num mapa. Registramos sua posição em tratados. Criamos um Estado. Escrevemos uma Constituição. Formamos uma aliança militar. Construímos satélites para observar o outro lado. Produzimos uma doutrina de segurança nacional. E escrevemos milhares de páginas explicando por que o armamento instalado atrás daquela fronteira responde ao armamento instalado do outro lado. O chimpanzé não faz nada disso.

Mas a pergunta continua desconfortável: como uma espécie capaz de entender átomos, mandar sondas para fora do Sistema Solar, criar o direito internacional e discutir a própria origem continua repetindo dinâmicas entre grupos que são mais antigas que a própria humanidade? Talvez nossa complexidade simbólica não tenha substituído essas dinâmicas antigas. Talvez tenha sido construída sobre elas.

Somos capazes de erguer sistemas simbólicos que nenhum outro animal ergueu. Criamos Estados, fronteiras, moedas, tratados, ideologias, religiões, tribunais, alianças militares e teorias para explicar por que fazemos o que fazemos. Podemos passar séculos discutindo quem começou. Podemos recontar a história até achar o acontecimento que melhor justifica a nossa própria reação. Podemos chamar o mesmo movimento de defesa ou agressão, libertação ou invasão, sanção ou guerra econômica, dissuasão ou ameaça — e cada uma dessas palavras muda de sentido conforme quem olha.

Agora imagine, por um instante, um botão vermelho. De um lado, um ser humano capaz de explicar milhares de anos de história, citar tratados, defender sua ideologia e montar uma argumentação sofisticada sobre por que chegou a hora de apertá-lo. Do outro, por absurdo que seja, um macaco. Se os dois apertarem o mesmo botão, o que muda para o míssil?

Nada.

O míssil não conhece história. Não reconhece soberania. Não sabe quem provocou primeiro. Não distingue democracia de autoritarismo. Não pergunta quem tinha razão. Depois que o botão é apertado, toda a extraordinária complexidade simbólica humana esbarra em algo muito mais simples:

a física.

É por isso que, neste artigo, não estou tentando descobrir quem está certo. Estou olhando para o que acontece antes do botão. Um movimento altera o ambiente. Alguém reage. A reação altera o ambiente de novo. Outro reage. Todos têm argumentos. Todos conseguem explicar por que o próximo passo parece necessário. E assim seguimos.

Talvez a estabilidade não acabe quando alguém decide destruir tudo. Talvez acabe quando, depois de tantas reações perfeitamente explicáveis para quem as executa, alguém finalmente aperta o botão.

E, nessa hora, a física não vai perguntar quem tinha razão.

Jumas Duleba

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