Teoria da Realidade Original
Voltar aos artigos
Reflexão

O vagalume, eu e a mudança

Sobre empresas que acabam, vidas que recomeçam, espécies que desaparecem e a estranha dificuldade humana de aceitar que tudo muda.

Há alguns meses eu tinha uma empresa de mergulho com uma estrutura considerável, funcionários, embarcações, equipamentos, clientes, compromissos, órgãos fiscalizadores e uma quantidade respeitável de boletos que, ao contrário dos clientes, nunca faltavam.

Hoje moro com minha esposa numa barraca, a cerca de 900 metros de altitude, numa montanha em Nova Friburgo, cercado pela Mata Atlântica.

Pode parecer que alguma coisa deu terrivelmente errado.

Talvez tenha dado.

A parte curiosa é que também pode ter dado certo.

Antes da barraca havia uma empresa

A empresa existiu por dezesseis anos. Era de mergulho recreativo. Começou em Arraial do Cabo, cresceu, abriu duas operações em Armação dos Búzios e chegou ao momento em que eu estava em São Paulo preparando uma quarta frente, destinada principalmente a captar o público paulista e levá-lo para mergulhar no litoral fluminense.

Durante anos, estivemos entre as empresas que mais formavam mergulhadores recreativos no Brasil. Em alguns períodos chegamos à primeira posição. Quando o mercado de cursos começou a mudar, passamos a concentrar mais energia nos mergulhos de primeira experiência — o que no Brasil se convencionou chamar de mergulho de batismo — e também alcançamos uma participação muito grande no mercado local.

A empresa cresceu.

E crescer tem uma característica curiosa: tudo fica maior.

A receita fica maior.

A estrutura fica maior.

As possibilidades ficam maiores.

E os problemas, demonstrando notável espírito de equipe, também crescem.

Vieram a pandemia, o endividamento e mudanças regulatórias em Arraial do Cabo que reduziram a capacidade operacional justamente nos períodos de maior movimento. A empresa se reorganizou. Depois se reorganizou novamente. E mais uma vez.

Empresas aprendem rapidamente uma habilidade que também é muito humana: chamar sobrevivência de planejamento estratégico.

Em maio do ano passado começou uma nova crise. Não era apenas nossa. O turismo náutico e o mergulho recreativo na região sofreram uma retração importante. Nossa receita caiu para perto da metade e não mostrava disposição alguma de voltar para casa.

Uma empresa pequena consegue, às vezes, atravessar uma queda dessas diminuindo o próprio corpo. Quando se tem uma estrutura maior, a inércia também é maior. Funcionários, imóveis, embarcações, manutenção, compromissos e custos não recebem imediatamente a notícia de que a receita resolveu desaparecer.

Durante quase um ano fomos reduzindo, adaptando, compensando, tentando de novo.

Até que, em abril, eu cansei.

Não houve uma cena cinematográfica. Nenhuma música triste começou a tocar. Eu não fiquei olhando pela janela enquanto uma chuva cuidadosamente contratada pela produção escorria pelo vidro.

Eu simplesmente decidi encerrar.

Depois de dezesseis anos, percebi que já não queria passar os próximos dezesseis reorganizando a empresa para compensar a reorganização anterior.

Fechamos as unidades. Entregamos os imóveis. A estrutura foi desmontada. Surgiu ainda uma alternativa para que uma parte pequena da atividade continuasse de maneira muito mais artesanal, parecida com a forma como muitas empresas do setor sempre funcionaram: menos estrutura, menos gente, o próprio dono atendendo, organizando, mergulhando, encostando literalmente a barriga no balcão.

Eu, porém, já estava em outro lugar antes mesmo de me mudar.

Uma troca um pouco incomum

Com a redução da empresa, minha participação na operação e minha renda passaram a ser muito menores. Ainda havia compromissos antigos para liquidar e ativos para vender.

Foi nesse processo que troquei um ativo intangível da empresa por um terreno em Nova Friburgo.

Não é exatamente a frase que costuma aparecer nos manuais de administração.

Nova Friburgo fica na Região Serrana do Rio de Janeiro. O nome não é uma tentativa brasileira de parecer europeu: a cidade nasceu de uma colônia suíça estabelecida no início do século XIX e foi batizada em referência a Fribourg, na Suíça. Depois vieram também outros grupos de imigrantes, e a cidade adquiriu uma história própria no meio das montanhas.

Meu terreno fica a aproximadamente 900 metros de altitude. O cume da montanha chega perto de 1.200 metros. Estamos num platô, com a Mata Atlântica descendo diante de nós por um talude até uma grota.

E, como eu ainda não tinha dinheiro suficiente para construir a casa, fizemos uma escolha bastante objetiva.

Compramos uma barraca.

Então foi assim que uma empresa com filiais, funcionários e embarcações terminou, por caminhos que nenhum planejamento estratégico teria coragem de apresentar numa reunião, com o antigo dono morando numa barraca numa montanha.

Há certa elegância nisso.

Principalmente porque não há reunião.

O departamento de recursos humanos agora tem galinhas

A ideia não é apenas morar num lugar diferente. É experimentar uma estrutura de vida diferente.

Já plantamos cerca de duas dezenas de árvores frutíferas. Estudei o solo, escolhi posições, observei sol, sombra, água e comecei a espalhar pelo terreno aquilo que, se tudo correr razoavelmente bem, daqui a algum tempo deixará de ser muda e passará a ser sobremesa.

Estamos preparando uma horta. Batata-doce, batata, cenoura e outros alimentos devem entrar no sistema. Pensamos num pequeno galinheiro. Seis galinhas já seriam capazes de fornecer uma quantidade respeitável de ovos.

E existe um plano de carreira bastante objetivo.

Se a galinha apresentar bons resultados, permanecerá na equipe.

Se chegar o momento de uma reestruturação, diferentemente das multinacionais, a expressão “cortar cabeças” poderá ser usada literalmente.

Provavelmente com acompanhamento de arroz e farofa.

Também pensamos num pequeno tanque de peixes. Na região serrana, por causa do clima, a truta aparece como uma possibilidade particularmente interessante. Temos água de nascente nas proximidades, placas solares e também fizemos ligação com a rede elétrica. A intenção é combinar soluções, não disputar um campeonato mundial de autossuficiência.

Não pretendo passar a fabricar o próprio parafuso, fundir panelas ou descobrir novamente a eletricidade.

Quero apenas reduzir a quantidade de coisas que preciso comprar para continuar existindo e, principalmente, reduzir a quantidade de existência que preciso vender para continuar comprando coisas.

Essa diferença parece pequena quando escrita numa frase.

Na prática, pode ocupar uma vida inteira.

As frutas amadurecerão em épocas diferentes. O que consumirmos, consumimos. O excedente talvez vire doce pelas mãos da minha esposa e eventualmente seja vendido de forma artesanal.

Mas existe uma regra importante: não haverá uma reunião daqui a cinco anos para anunciar a inauguração da Divisão Internacional de Compotas da Serra.

Eu já fui empresário por tempo suficiente.

Não quero transformar novamente toda atividade agradável numa estrutura que precise crescer para pagar a estrutura criada para permitir que ela crescesse.

Antes da montanha, um morro

Essa não foi, aliás, minha primeira tentativa de trocar de cenário para descobrir se, mudando o cenário, alguma coisa dentro de mim também mudava de posição.

Quando voltei para Arraial do Cabo, depois de já ter morado numa cobertura com piscina de frente para o mar e também numa casa de três andares, com piscina e empregados, resolvi morar no Morro da Cabocla, uma comunidade de Arraial.

Eu poderia ter alugado outro imóvel convencional. Talvez não no mesmo padrão de antes, mas poderia. A escolha do morro não foi simplesmente uma planilha financeira vencendo uma discussão.

Eu queria mudança.

E encontrei.

A vista para o mar continuava lá, o que prova que o oceano felizmente ainda não havia criado categorias de acesso por faixa de renda. Mas quase todo o resto funcionava de outra maneira.

As pessoas se conheciam mais. A ajuda circulava com menos cerimônia. A vida acontecia mais perto da porta de casa. Havia menos espaço para aquela competição silenciosa em que bairros inteiros parecem participar de um campeonato cujo regulamento ninguém recebeu, mas no qual todos precisam demonstrar que estão indo muito bem.

E havia crianças na rua.

Crianças soltando pipa, correndo, inventando brincadeiras e sendo convocadas para casa por um sistema de comunicação de altíssima potência e baixíssimo custo:

— Entra!

A mãe aparecia na janela e resolvia em dois segundos aquilo para que hoje talvez criássemos um grupo, uma notificação e algum aplicativo de controle parental.

É claro que crianças ainda brincam nas ruas em muitos lugares, e seria absurdo transformar uma experiência pessoal numa teoria universal sobre bairros, classes sociais ou gerações. Mas o contraste me chamou atenção. Em muitos ambientes urbanos de classe média e alta que eu havia conhecido, aquela cena tinha se tornado muito menos comum. A rua havia perdido parte da função de extensão da casa. A infância começava a migrar para espaços controlados, telas, condomínios, agendas e atividades organizadas.

Na época eu ainda não estava pensando em vagalumes.

Mas já estava observando a mesma coisa.

Contextos mudam. E, quando mudam, não levam apenas objetos e hábitos. Levam também formas inteiras de relacionamento.

O ritmo de uma montanha

A diferença mais evidente não está no patrimônio.

Está no ritmo.

Numa pequena comunidade rural, com poucos vizinhos, as relações têm outra velocidade. Alguém aparece e traz alguma coisa. Em outro momento levamos alguma coisa para alguém. Às vezes uma conversa acontece no meio do dia sem que seja necessário agendá-la no Google Calendar com o título “alinhamento informal entre vizinhos”.

Todos trabalham.

Mas trabalhar não ocupa exatamente o mesmo lugar simbólico.

Durante muito tempo minha vida esteve organizada ao redor de estruturas que precisavam continuar funcionando. Funcionários dependiam da empresa. Clientes tinham expectativas. Barcos precisavam de manutenção. Equipamentos precisavam estar prontos. Órgãos públicos tinham regras. Fornecedores tinham vencimentos. O banco, sempre muito atento à nossa evolução espiritual, tinha datas.

Aqui, em determinados momentos, eu paro porque passou um jacu.

É uma ave grande, comum em áreas de Mata Atlântica. Alguns aparecem com uma região avermelhada na garganta. Quando levantam voo perto da gente, as asas produzem um ruído tão intenso que a primeira impressão é a de que a Força Aérea decidiu operar um helicóptero entre as árvores.

Também passam grupos de periquitos. Já apareceu coelho selvagem. Há saguis. Há aves que ainda não sei identificar. Há sons que primeiro ouvimos e só depois descobrimos quem os produz.

E há o céu.

O céu de uma grande cidade e o céu de uma montanha são tecnicamente o mesmo céu, o que demonstra como a expressão “tecnicamente a mesma coisa” pode esconder diferenças bastante relevantes.

À noite vemos muito mais estrelas. Às vezes passa um meteoro. Em outras ocasiões, algum objeto luminoso pode ser satélite ou detrito espacial refletindo luz ou reentrando na atmosfera. E, no fim da tarde, tornou-se comum simplesmente olhar para cima.

Foi assim que uma estrela apagou.

Que estrela é aquela?

Eu havia acabado de trabalhar em um artigo sobre inteligência artificial e risco existencial. O tema era particularmente leve: a possibilidade de nós todos morrermos.

Depois de escrever sobre a eventual extinção da humanidade, sentei ao lado da minha esposa.

Estávamos olhando o céu quando ela perguntou:

— Que estrela é aquela?

Olhei.

Vi o ponto luminoso.

E então a estrela apagou.

Por alguns segundos houve aquele pequeno curto-circuito que acontece quando a realidade se recusa a obedecer à categoria em que acabamos de colocá-la.

Estrelas, em geral, não costumam apagar porque Marcelly perguntou por elas.

Olhei melhor.

A estrela voltou.

E apagou novamente.

Não era uma estrela.

Era um vagalume.

Começamos a rir.

Depois apareceu outro. Talvez mais um.

E uma coisa estranha aconteceu: fiquei genuinamente impressionado por ver um vagalume.

Um vagalume.

Quando eu era criança, isso não teria qualquer valor jornalístico. Eu me lembro de lugares em que havia muitos deles, às vezes tantos que a memória os reorganiza como pequenas nuvens de pontos luminosos piscando no escuro.

Então percebi algo que não havia percebido até aquele instante.

Eu não via vagalumes havia décadas.

Os vagalumes estão desaparecendo?

A resposta científica é mais interessante do que a manchete.

Não é correto dizer simplesmente que “os vagalumes estão em extinção”, como se vagalume fosse uma única espécie caminhando coletivamente para a saída. Existem mais de duas mil espécies conhecidas de lampirídeos no mundo, e ainda há enormes lacunas de dados sobre muitas delas.

Mas há razões reais para preocupação.

Relatos de declínio vêm sendo registrados em diferentes regiões, algumas populações desapareceram localmente e determinadas espécies já foram avaliadas como ameaçadas. Pesquisadores e organizações de conservação apontam entre os principais riscos a perda e degradação de habitat, a poluição luminosa, pesticidas, alterações na qualidade da água e mudanças climáticas.

A poluição luminosa tem uma ironia particularmente cruel: um animal que passou milhões de anos aperfeiçoando a capacidade de produzir luz para se comunicar agora pode ter dificuldades porque nós iluminamos a noite inteira.

Inventamos o poste e atrapalhamos o romance dos vagalumes.

É uma contribuição bastante humana para a biodiversidade.

Ao mesmo tempo, a ciência ainda não possui séries históricas suficientes para afirmar que todas.

O vagalume era só o começo

Foi então que percebi que o vagalume não era exatamente o assunto.

Era um gatilho.

A pequena luz piscando diante da barraca havia aberto uma comparação entre dois momentos da minha própria vida. Mas bastava ampliar um pouco o campo para perceber que fazemos esse tipo de comparação o tempo inteiro.

Mudam as espécies que encontramos. Mudam as cidades. Mudam as tecnologias. Mudam as formas de trabalhar, comprar, namorar, conversar, criar filhos, aprender, viajar, produzir, brincar e perder tempo — atividade na qual a humanidade, apesar de todas as inovações, mantém desempenho bastante consistente.

Uma geração se lembra de crianças ocupando a rua. Outra se lembra da televisão reunindo a família num horário determinado. Outra terá lembranças de jogos online, mensagens instantâneas e amizades que nunca dependeram de duas pessoas estarem fisicamente no mesmo lugar.

Quem viveu uma dessas configurações pode olhar para a seguinte e concluir que alguma coisa essencial foi perdida.

E alguma coisa provavelmente foi.

O que às vezes esquecemos é que alguma coisa também foi criada.

A criança que hoje constrói parte de sua vida social através de uma tela não sente saudade de um mundo em que precisava esperar o telefone fixo ficar livre. Para ela, esse mundo não foi perdido. Ele simplesmente nunca existiu como experiência.

O avô pode dizer:

— No meu tempo era diferente.

E estará absolutamente certo.

O neto talvez pense, com a mesma convicção:

— Ainda bem.

Nenhum dos dois está observando a mudança a partir de lugar neutro. Cada um carrega uma biografia, e essa biografia transforma determinados contextos em referência.

É por isso que a mudança histórica e a experiência humana da mudança não são a mesma coisa.

Tecnologicamente, uma transformação pode ampliar possibilidades e eliminar hábitos. Culturalmente, pode aproximar grupos e dissolver outros. Socialmente, pode produzir liberdades que uma geração anterior não possuía e criar formas de isolamento que ela também não conhecia. Economicamente, pode destruir profissões e criar outras. Ambientalmente, pode modificar paisagens e relações entre espécies. Em cada eixo, ganhos e perdas podem coexistir sem pedir nossa autorização para caber numa narrativa simples.

O problema aparece quando transformamos a configuração à qual nos acostumamos em medida natural de como o mundo deveria ser.

Talvez por isso envelhecer tenha também uma dimensão de deslocamento.

Não é apenas o corpo que encontra mais dificuldade para acompanhar certas mudanças. O cenário que ajudou a construir nossas referências começa a desaparecer aos poucos. Palavras mudam. Tecnologias mudam. Códigos sociais mudam. Lugares mudam. Pessoas desaparecem. Objetos que pareciam permanentes viram peças de museu com uma velocidade um pouco ofensiva.

Uma criança chega ao mundo sem precisar desaprender o mundo anterior.

Nós, adultos, frequentemente precisamos.

E cada geração repete, com pequenas variações, a mesma experiência. Constrói seus vínculos dentro de determinado contexto, passa a tratá-lo como familiar, envelhece, observa outra configuração chegando e descobre que a realidade não havia assinado nenhum compromisso de conservar o cenário de sua juventude.

A geração seguinte fará exatamente a mesma coisa.

Talvez com hologramas, inteligências artificiais ou qualquer outra tecnologia que seus netos considerarão antiquada e emocionalmente importante.

O vagalume, portanto, não me fez apenas pensar na possível perda de uma espécie.

Fez-me perceber a estrutura do sentimento de perda.

Para sentir que um mundo desapareceu, primeiro precisamos ter vivido nele.

Talvez as populações de vagalumes estejam diminuindo da mesma maneira. Algumas espécies são mais vulneráveis; outras, menos. Há regiões bem estudadas e outras praticamente desconhecidas.

Portanto, meu espanto naquela noite não constitui um levantamento populacional.

“Jumas viu três vagalumes em Nova Friburgo” dificilmente passará pela revisão por pares como demonstração definitiva de uma tendência global.

Mas o encontro fez algo que estatísticas nem sempre conseguem fazer.

Ele acionou uma memória.

E a memória acionou uma ausência.

Para sentir falta, primeiro é preciso ter tido

Eu não fiquei devastado.

Não passei a noite abraçado a uma árvore dizendo que o mundo perdeu o sentido.

Foi apenas um pequeno desconforto.

Uma sensação parecida com reencontrar por acaso uma música da infância e perceber que havia uma parte inteira da sua vida guardada ali sem que você soubesse.

Por que aquele inseto teve esse efeito?

Porque eu tinha uma comparação.

Eu conheci um mundo com mais vagalumes — pelo menos nos lugares e momentos que fizeram parte da minha infância. Vi muitos. Depois passei décadas sem vê-los. Quando um deles reapareceu piscando diante de mim, a distância entre os dois mundos ficou visível.

Uma criança que nascer num futuro em que determinada espécie já não exista não sentirá saudade dela.

Poderá estudar sua biologia. Poderá ver imagens. Poderá lamentar intelectualmente a perda. Talvez considere absurdo que gerações anteriores tenham permitido seu desaparecimento.

Mas não sentirá exatamente a mesma falta.

Saudade exige memória.

E memória exige alguma forma de presença anterior.

É pouco provável que alguém acorde numa terça-feira tomado por uma saudade insuportável de um Triceratops.

Podemos gostar de dinossauros. Podemos estudar dinossauros. Podemos assistir a Spielberg e desenvolver uma relação bastante convincente com a ideia de dinossauros.

Mas nenhum de nós se lembra de um Triceratops atravessando o quintal da avó.

Não houve perda biográfica.

É por isso que tantas vezes confundimos duas coisas diferentes: uma transformação da realidade e a experiência emocional que temos dessa transformação.

A mudança acontece fora.

O significado da mudança acontece também dentro de nós.

Isso não torna a extinção irrelevante

Aqui é importante evitar um salto lógico bastante tentador.

Dizer que extinções sempre aconteceram não significa dizer que tanto faz provocá-las.

A Terra mudou continuamente ao longo de bilhões de anos. Climas mudaram. Continentes se moveram. Oceanos abriram e fecharam. Ecossistemas apareceram. Espécies dominaram ambientes inteiros e depois desapareceram. A esmagadora maioria das espécies que já existiram não está mais aqui.

Isso é história natural.

Mas nós também somos agora uma força capaz de alterar habitats numa velocidade extraordinária. Quando destruímos ambientes, espalhamos substâncias tóxicas, iluminamos noites inteiras ou modificamos sistemas dos quais outras espécies dependem, não nos transformamos magicamente em espectadores neutros apenas porque a extinção existia antes de nós.

Um vulcão também pode destruir uma floresta.

Isso não constitui argumento para incendiá-la.

A questão interessante é outra.

Mesmo quando fazemos tudo o que podemos para preservar, a realidade não assina contratos de permanência.

Preservar não significa congelar.

Cuidar não significa impedir qualquer transformação.

E talvez parte de nossa dificuldade esteja justamente em desejar que aquilo que amamos permaneça parecido com a versão que aprendemos a amar.

Chegamos muito tarde à festa

Existe uma maneira útil de perceber a escala dessa história.

A Terra tem aproximadamente 4,54 bilhões de anos. Nossa espécie, Homo sapiens, existe há algo em torno de 300 mil anos.

Se comprimíssemos toda a história do planeta em apenas 24 horas, Homo sapiens apareceria aproximadamente nos últimos seis segundos antes da meia-noite.

Se preferirmos futebol, a situação fica ainda mais humilhante.

Numa partida de 90 minutos representando toda a história da Terra, nossa espécie entraria em campo nos últimos quatro décimos de segundo.

Não seria “no último minuto do segundo tempo”.

Seria praticamente depois de o narrador já ter começado a dizer “acabou”.

E ainda assim chegamos há poucos décimos de segundo e imediatamente começamos a discutir como o planeta deveria permanecer.

É uma confiança admirável.

Durante quase toda a história da Terra, não havia seres humanos para sentir saudade de nada.

Houve mundos inteiros sem nós.

Florestas sem observadores humanos.

Extinções sem documentários.

Oceanos sem resorts.

Animais extraordinários nasceram, dominaram ambientes e desapareceram sem receber uma única homenagem no Instagram.

A realidade continuou.

Talvez o problema seja nossa expectativa de permanência

Nós sabemos que as coisas mudam.

O problema é que normalmente preferimos que mudem as coisas às quais ainda não nos apegamos.

Queremos inovação, desde que ela não altere aquilo que consideramos essencial. Queremos desenvolvimento, desde que a paisagem da infância permaneça esperando por nós. Queremos viver muito, mas estranhamos quando o mundo que conhecíamos envelhece junto conosco.

Há uma contradição compreensível nisso.

Nossa consciência constrói continuidade. Precisamos dela. Se acordássemos todas as manhãs sem qualquer relação com aquilo que fomos ontem, seria difícil até localizar a escova de dentes, quanto mais construir uma identidade.

Então criamos referências.

Minha cidade.

Minha profissão.

Minha empresa.

Minha casa.

As pessoas que conheço.

Os lugares que frequento.

Os vagalumes que existiam quando eu era criança.

Essas coisas ajudam a formar a representação que faço do mundo e de mim mesmo dentro dele.

Quando alguma delas desaparece, não muda apenas o cenário.

Uma pequena parte da representação também precisa ser reconstruída.

Talvez seja por isso que mudanças aparentemente banais provoquem reações tão desproporcionais. Às vezes não estamos defendendo um objeto, um costume, uma profissão ou uma paisagem.

Estamos defendendo a estabilidade da história que contamos para nós mesmos.

Eu também não permaneci muito tempo no mesmo lugar

Seria intelectualmente conveniente terminar este artigo dizendo que o mundo muda enquanto eu, observador sereno e perfeitamente coerente, acompanho tudo de uma posição privilegiada.

Infelizmente, minha própria biografia estraga essa possibilidade.

Eu também mudei o tempo inteiro.

Já pratiquei artes marciais seriamente. Cheguei à faixa marrom no full contact, participei de campeonatos e estava a caminho da faixa preta.

Depois de algum tempo apanhando — atividade que, embora muito educativa, começou a produzir alterações pouco elegantes no meu nariz — mudei de direção.

Fui pintar.

Passei para as artes plásticas, pintei a óleo, participei de exposições e vendi quadros.

Em algum momento, aparentemente concluí que tinta não era suficientemente abstrata e fui trabalhar com computadores.

Virei programador e analista de sistemas.

Depois estudei contabilidade.

Também trabalhei com fotografia, inclusive fotografia de moda.

Depois virei empresário do mergulho e passei dezesseis anos entre administração, clientes, barcos, equipamentos e períodos em que voltava para debaixo d’água.

Agora comecei a escrever.

Não me considero filósofo. Não sou especialista numa disciplina científica específica. E ainda estou descobrindo o que significa, para mim, assumir a escrita como atividade central.

Se alguém tivesse me perguntado, em algum daqueles momentos, qual deles era o verdadeiro Jumas, eu provavelmente teria apontado para a versão que estava ocupando o corpo naquele dia.

Hoje isso me parece uma pergunta estranha.

Todos eram.

E nenhum permaneceu.

Talvez identidade seja menos uma fotografia e mais uma sequência.

O problema é que gostamos muito de fotografias.

O fracasso que mudou de significado

Isso também altera a forma como olho para o encerramento da empresa.

Se eu congelar a história em abril, posso descrevê-la como fracasso.

Uma empresa que teve destaque, cresceu, abriu operações, atravessou crises e finalmente perdeu sustentação econômica suficiente para que eu decidisse desmontá-la.

Fim.

Créditos.

Luzes acesas no cinema.

Mas a realidade comete a inconveniência de continuar depois do ponto em que decidimos encerrar a narrativa.

Um ativo da empresa virou terreno.

O terreno virou possibilidade de casa.

A falta da casa virou barraca.

A barraca virou contato cotidiano com uma montanha.

A montanha virou árvores frutíferas, horta, projeto de galinheiro, ideia de tanque de peixes, vizinhos, jacus, periquitos e um céu que eu havia deixado de olhar.

E o céu virou um vagalume.

O vagalume virou este artigo.

Então, afinal, onde exatamente termina o fracasso e começa outra coisa?

Não estou tentando transformar dificuldade financeira em palestra motivacional.

Há contas. Há perdas. Há compromissos ainda sendo resolvidos. Morar numa barraca tem momentos agradáveis e outros em que a natureza demonstra que não assinou contrato com o departamento de conforto. Chuva continua molhando. Frio continua sendo frio. Lama não se torna filosofia apenas porque estamos contemplativos.

Uma vida simples não é uma vida magicamente simples.

Ela apenas desloca as complexidades.

Mas também desloca prioridades.

E talvez seja isso que eu estivesse procurando quando decidi não reconstruir a empresa mais uma vez.

Quanto custa aquilo que chamamos de sucesso?

Durante muito tempo, crescimento pareceu uma direção óbvia.

Mais clientes.

Mais receita.

Mais unidades.

Mais funcionários.

Mais capacidade.

A linguagem empresarial trata o “mais” com uma reverência quase religiosa.

Uma empresa que faturou dez quer faturar vinte. Se faturou vinte, começa a reunião sobre como chegar a quarenta. Ninguém entra na sala e diz:

— Senhores, atingimos um tamanho bastante agradável. Vamos ficar assim e sair mais cedo para observar pássaros.

Provavelmente seria encaminhado ao RH.

Mas existe uma pergunta que números de crescimento não respondem sozinhos:

quanto da vida é necessário entregar para sustentar a estrutura que produz aquilo que chamamos de sucesso?

Não há uma resposta universal.

Para alguém, construir uma empresa enorme pode ser uma experiência extraordinariamente significativa. Para outro, cuidar de seis galinhas e escrever pode produzir uma vida mais coerente com aquilo que deseja.

O erro talvez esteja em transformar uma configuração em medida universal das outras.

Não há virtude automática em morar numa barraca.

Assim como não há virtude automática em ter quatro filiais.

A questão é a relação entre aquilo que construímos e aquilo que sacrificamos para mantê-lo.

Tempo também é patrimônio.

Saúde também.

Atenção também.

Liberdade também.

E todos eles têm uma característica econômica particularmente desagradável: são finitos.

O mundo não está tentando preservar nossas lembranças

O vagalume daquela noite condensou tudo isso de uma maneira quase ridícula.

Eu havia passado o dia pensando em inteligência artificial, tecnologia, riscos futuros e transformações potencialmente gigantescas da civilização.

Então um inseto de poucos centímetros acendeu e apagou diante de nós e me levou cinquenta anos para trás.

Talvez seja essa uma das dificuldades de pensar sobre mudança.

Ela acontece em escalas diferentes ao mesmo tempo.

Uma empresa termina.

Uma profissão muda.

Uma cidade cresce.

Uma floresta recua ou se recupera.

Uma população de insetos diminui.

Uma tecnologia reorganiza mercados.

Uma espécie aparece.

Outra desaparece.

Continentes se movem alguns centímetros.

Estrelas nascem e morrem.

Nós organizamos tudo isso em categorias porque precisamos compreender alguma coisa.

Mas a realidade não parece particularmente preocupada com nossas categorias.

Ela continua acontecendo.

A mudança não é boa

Também não é ruim.

Essa frase precisa de cuidado.

Mudanças podem produzir consequências que consideramos terríveis. Uma espécie extinta representa perda irreversível de diversidade biológica. Uma floresta destruída pode comprometer sistemas inteiros. Uma doença pode transformar brutalmente uma família. Uma guerra pode destruir milhões de vidas.

Não faria sentido olhar para qualquer uma dessas coisas e responder com um sorriso contemplativo:

— Tudo muda.

Isso seria apenas uma maneira sofisticada de não pensar.

O ponto é outro.

“Bom” e “ruim” são avaliações que fazemos sobre transformações a partir de determinadas perspectivas, valores, necessidades e consequências.

A mudança, em si, é anterior à avaliação.

Ela acontece.

Depois nós tentamos compreender o que aconteceu, preservar o que valorizamos, impedir o que consideramos destrutivo e produzir condições que julgamos melhores.

E devemos fazer isso.

Só talvez seja útil lembrar que nenhuma vitória transforma a realidade em objeto imóvel.

Mesmo aquilo que conseguimos preservar continuará mudando.

Inclusive nós.

O vagalume não sabe o que é nostalgia

Imagino aquele vagalume seguindo sua noite sem qualquer conhecimento da importância filosófica que eu havia acabado de atribuir a ele.

Provavelmente estava ocupado com questões mais urgentes da existência de um lampirídeo.

Encontrar alimento.

Evitar ser alimento.

Reproduzir-se.

Piscar no momento adequado.

Não bater na barraca do filósofo que não é filósofo.

Para ele, aquela luz não era símbolo da infância, da biodiversidade, da passagem do tempo ou da impermanência.

Era apenas parte de sua existência.

O significado extra foi meu.

E isso talvez seja o mais interessante.

Nós não apenas percebemos mudanças.

Nós as carregamos de significado.

Uma casa não é apenas uma construção quando foi a casa da infância.

Uma música não é apenas uma sequência de sons quando tocava num período importante da vida.

Uma profissão não é apenas uma atividade quando organizou dezesseis anos da identidade de alguém.

Um vagalume não é apenas um besouro luminoso quando sua luz conecta uma noite numa montanha aos olhos de uma criança décadas antes.

O mundo muda.

E nós sentimos a mudança de acordo com aquilo que o mundo já significou para nós.

Talvez recomeçar seja apenas perceber isso

Quando troquei aquele ativo da empresa pelo terreno, eu pensava principalmente em resolver uma situação concreta.

Precisava reorganizar a vida.

Reduzir custos.

Liquidar compromissos.

Criar uma base para começar novamente.

Não havia um plano filosófico chamado “Projeto Existencial da Montanha”.

Ainda bem.

Provavelmente teria PowerPoint.

Mas, aos poucos, a mudança material começou a produzir outras mudanças.

Passei a observar o solo porque queria plantar.

Passei a observar o sol porque precisava saber onde colocar a horta.

Passei a observar a água porque precisava entender drenagem e abastecimento.

Passei a observar as aves porque elas estavam ali.

Passei a olhar o céu porque finalmente conseguia vê-lo melhor.

E, numa dessas noites, vi uma estrela que não era estrela.

Talvez uma mudança de vida seja, em parte, uma mudança daquilo a que prestamos atenção.

Durante anos minha atenção foi capturada por faturamento, operação, escala, equipe, agenda, cliente, barco, manutenção, fiscalização, impostos e vencimentos.

Agora uma parte dela está ocupada tentando descobrir por que determinada muda está crescendo mais devagar do que outra.

Não sei se isso representa evolução.

Talvez seja apenas jardinagem.

Mas é uma configuração diferente de existência.

E, neste momento, é a que quero experimentar.

A única coisa que não muda

Há uma frase repetida em diferentes formas há milhares de anos: tudo muda.

Ela é tão conhecida que corre o risco de parecer banal.

Talvez seja banal justamente porque é difícil encontrar uma observação mais persistente.

Minha empresa mudou.

Minha profissão mudou.

As cidades em que vivi mudaram.

Meu corpo mudou.

Meu nariz certamente pode testemunhar uma parte do processo.

Minha relação com trabalho mudou.

O terreno muda a cada chuva.

As árvores que plantei estão mudando enquanto escrevo.

Os animais que aparecem ali formam populações que também mudam.

A Mata Atlântica diante de mim não é a mesma floresta de cem anos atrás e não será a mesma daqui a cem anos.

Os vagalumes mudam.

Nós mudamos.

Até aquilo que tentamos conservar só pode ser conservado dentro de algum processo de transformação.

Talvez a formulação mais precisa não seja dizer que a mudança é a única coisa que não muda.

Isso parece um paradoxo bonito demais para não desconfiarmos dele.

Talvez seja dizer que a transformação é uma propriedade permanente daquilo que existe no tempo.

E nossa dificuldade não está em desconhecer isso.

Nós sabemos.

A dificuldade está em sentir isso quando a transformação alcança alguma coisa que fazia parte de nós.

Uma empresa.

Uma casa.

Uma cidade.

Uma pessoa.

Uma paisagem.

Ou uma pequena luz piscando no escuro.

Naquela noite, minha esposa perguntou que estrela era aquela.

Eu olhei.

A estrela apagou.

Por alguns segundos, aquilo pareceu estranho.

Depois descobrimos que era um vagalume e começamos a rir.

Talvez seja uma boa imagem para terminar.

Às vezes alguma coisa apaga e nossa primeira impressão é que perdemos aquilo que estávamos olhando.

Então os olhos se ajustam.

E percebemos que não era exatamente o que pensávamos.

A realidade havia apenas mudado de forma.

Ou talvez nós finalmente tivéssemos olhado melhor.

Jumas Duleba

Autor da Teoria da Realidade Original

Continue esta reflexão com uma IA

Quer explorar estas ideias por outros ângulos? Copie o contexto do artigo com as orientações abaixo e cole na IA de sua preferência. Ela receberá o contexto necessário para continuar a investigação com você.

Ver o que será copiado

Depois da conversa, volte se quiser compartilhar nos comentários o que mudou, o que permaneceu ou que novas questões surgiram.

Comentários

Este espaço está aberto a perguntas, críticas, objeções e outras perspectivas sobre as ideias apresentadas neste artigo.

Os comentários são moderados antes da publicação. O envio de um comentário não implica resposta do autor.

Comentários publicados

Ainda não há comentários publicados.